“A sociedade de massas está a caminho do fim”

Алый Король/CC: by-sa
Алый Король/CC: by-sa

Uma entrevista conjunta a Alvin e Heidi Toffler, os autores de Choque do Futuro e A Terceira Vaga, que previram a revolução das tecnologias de informação, incluindo o impacto dos computadores pessoais e da Internet, e anteciparam outras transformações estruturais da sociedade, como o enfraquecimento da família tradicional, a importância da biotecnologia e a possibilidade de trabalho à distância.

Alvin Toffler morreu a 27 de Junho de 2016, com 87 anos. Esta conversa aconteceu em Lisboa, em 2008. Por responsabilidade do jornalista, está longe de ser uma entrevista brilhante. O obituário que escrevi para o Público pode ser lido aqui. Continuar a ler ““A sociedade de massas está a caminho do fim””

Carros autónomos: “Vou contra um muro ou contra uma pessoa?”

Há carros que estacionam sozinhos, que travam em situações de emergência ou que corrigem trajectórias. Os fabricantes estão a trabalhar em carros que desempenham cada vez mais funções que tipicamente são do condutor. Muitas marcas já disseram que querem ter na estrada carros autónomos por volta do ano 2020. Mas não é apenas o sector que está a apostar na tecnologia. O Google já pôs carros a andar sozinhos no ambiente caótico das cidades.

Bryan Reimer lidera uma equipa no MIT que estuda a forma como os humanos se relacionam com a tecnologia automóvel, incluindo os carros autónomos. Numa conversa com o PÚBLICO, em Lisboa, durante um evento organizado pela empresa de reparação de pára-brisas Belron, argumentou que ainda faltam várias peças no puzzle dos carros que não precisam de condutor. Continuar a ler “Carros autónomos: “Vou contra um muro ou contra uma pessoa?””

A revolução das impressoras 3D ainda não bateu à porta de casa

A ideia era promissora: uma loja onde os clientes pudessem materializar, em plástico, objectos que tivessem desenhado no computador em casa. Podiam ser brinquedos, brincos, maçanetas de portas, peças decorativas. As pessoas poderiam ainda divulgar no site da loja as suas próprias criações e receber uma comissão se outros estivessem interessados em usá-las. Continuar a ler “A revolução das impressoras 3D ainda não bateu à porta de casa”

Inteligência artificial: “Precisamos mesmo de esperar por um desastre?”

Entrevista a Luciano Floridi, professor de Filosofia e Ética da Informação na Universidade de Oxford

Trabalhar menos e ter uma vida mais fácil é um desejo universal. Na sociedade descrita por Thomas More, as pessoas podiam escolher carreiras de acordo com os seus interesses (um conceito relativamente novo para a época), todos tinham de trabalhar (incluindo na agricultura) e as jornadas de trabalho eram reduzidas. É uma tendência histórica atribuir a outros os trabalhos que não queremos fazer: a animais (como cavalos), a escravos (que também existem na Utopia de More) e, mais recentemente, a máquinas, que se estão a tornar cada vez mais inteligentes e são capazes de fazer tarefas que antes eram exclusivamente humanas. Continuar a ler “Inteligência artificial: “Precisamos mesmo de esperar por um desastre?””

A bolha e o parêntesis dos media

Há algumas semanas, recebi um email do criador de uma aplicação chamada Attentive, que selecciona e personaliza informação . O Daniel Araújo queria trocar ideias sobre o “futuro do consumo de conteúdos”.

O que se segue é uma adaptação de um email que lhe enviei. Em contactos seguintes, fiquei a saber que o algoritmo por trás da Attentive tem a preocupação (não usei a aplicação o suficiente para saber se concretizada) de não fechar as pessoas dentro dos seus filtros de interesses e ideias. O tema é relevante numa altura em que vários órgãos de comunicação internacionais fizeram uma parceria com o Facebook para integrarem os respectivos conteúdos naquela plataforma.


O caminho da personalização e da selecção algorítmica da nossa dieta informativa tem aspectos preocupantes.

Ajustar a informação aos interesses de cada pessoa é, à primeira vista, o caminho natural para resolver a questão da abundância de conteúdos. O problema é que, quanto mais eficaz se for nessa solução, mais se corre o risco de termos pessoas centradas apenas nos seus próprios interesses, sem exposição a outros temas e outras ideias, e com menos probabilidade de evoluírem as suas opiniões sobre assuntos relevantes — e tudo isto traz prejuízos para o indivíduo e para a esfera pública.

Se uma pessoa começa a filtrar todas as fontes de conteúdos que contrariam as suas ideologias políticas, é fácil perceber que a pessoa fica numa situação imutável, sem sequer confrontar outras ideias com aquelas que já tem. O mesmo é válido essencialmente para todas as áreas sobre as quais se produz informação.

Este problema tem sido descrito como a filter bubble, um termo cunhado por Eli Pariser, que deu uma afamada Ted Talk sobre o assunto:

Uma outra questão relacionada com a dos filtros de ultra-personalização é a do parêntesis dos mass media. É uma ideia que diz que os mass media, que começaram com a imprensa de Gutenberg, podem ter sido uma parêntesis histórico que começa a fechar-se, já que a informação voltou a circular pessoa-a-pessoa, fruto do email, dos blogues e das redes sociais, e até da facilidade em telefonar a qualquer pessoa a qualquer momento (é uma ideia discutível, mas é um exercício interessante pensar sob esta perspectiva).

Alguém que tenha o Facebook como principal filtro de informação (e que, portanto, está exposto a informação muito condicionada pelo seu próprio círculo social) está quase a regressar aos tempos pré-Gutenberg, em que sabíamos as notícias da nossa aldeia, narradas por quem era próximo de nós (e, tendencialmente, parecido connosco).

Naturalmente, esta nova aldeia “facebookiana” não é geográfica, mas é uma aldeia de ideias, ideologias e experiências de vida, já que os nossos círculos sociais são genericamente próximos de nós nestes aspectos – e, no caso dos indivíduos que não são, os nossos “likes” permitem ao Facebook fazer o devido filtro (um estudo publicado recentemente na Science, da autoria de cientistas do Facebook, indica que o algoritmo não é um filtro tão poderoso e que os utilizadores estão expostos nesta rede social a visões políticas diferentes das suas próprias ideologias).

Não há respostas definitivas quanto ao futuro do consumo de informação, mas é certo que, a curto prazo, e tal como hoje, os hábitos não serão homogéneos e haverá fossos geracionais. A televisão continuará a desempenhar um papel importante, pelo menos para quem tenha nascido até às décadas de 1970/80.

Discute-se também se a imprensa vai manter as suas plataformas (jornais, revistas, sites) ou simplesmente distribuir os seus conteúdos por plataformas alheias (emails, Facebook, agregadores, aplicações de comunicação como o WhatsApp, etc). Provavelmente, teremos uma situação híbrida (a este propósito, é interessante olhar para o Quartz, que se autodefine como uma API).

E, claro, há a questão da personalização, que provavelmente vai intensificar-se. Isso será um desafio. O grande problema não será personalizar ainda mais a informação, mas perceber como tornar as pessoas mais informadas, levando-as a alargar horizontes, numa altura em que toda a vida digital os empurra no sentido contrário.