Uma pequena discrepância de 90 mil nos números da manifestação

por João Pedro Pereira

O cálculo dos números das manifestações, marchas e demais ajuntamentos é algo que me intriga desde que tive de o fazer pela primeira vez, para uma manifestação de estudantes. Há duas técnicas que me parecem ser vulgarmente aplicadas para estimar estes números.

Uma delas é perguntar à polícia e à organização e apresentar os dois números (embora seja claro que nem uns nem outros têm muitos mais meios para estimar o número de pessoas que não o interesse próprio em que esse número seja maior ou menor).

Outra possibilidade é fazer uma estimativa própria. E isto é feito com um raciocínio do género: “Se na manifestação do ano passado estavam X pessoas, então nesta, que é aparentemente maior/menor/igual estão Y pessoas”. O problema, óbvio, está naquele número X, que foi determinado ou através da primeira técnica (perguntando a quem tem interesses no assunto) ou da aplicação deste mesmo raciocínio em relação a uma qualquer outra manifestação anterior.

Ora, o jornalista e académico Steve Doig, que está temporariamente em Portugal a dar aulas, recorreu à ajuda dos seus estudantes e do Google Maps para estimar o número de manifestantes que este sábado, em Lisboa, desceram a Avenida da Liberdade e se reuniram na Praça dos Restauradores. A discrepância entre os dados de Doig e os da organização é muito grande.

Segundo Doig, oito a 10 mil pessoas pessoas participaram na marcha e cerca de cinco mil estiveram nos Restauradores. Os números da organização: cerca de 100 mil pessoas. A polícia não quis fazer estimativas (a organização diz que os números que apresentam são com base nos dados da polícia).

O método usado por Doig até pode não ser perfeito (é uma estimativa), mas é lógico, fundamentado e transparente. Percebe-se como é que se chegou aos resultados — e estes fazem sentido. Um bom exemplo de jornalismo.