Desde que fiz um trabalho sobre o Second Life, tenho seguido com alguma atenção o crescimento desta sociedade paralela.
O que se segue é um exercício recreativo de pura ficção. Os factos relativos a 2006 são todos verídicos; os restantes não têm sequer qualquer pretensão de serem previsões sustentadas.
2006
O Second Life atinge o milhão de utilizadores.
Muitas empresas vivem já da criação de conteúdos para o universo tridimensional do SL. Imensos utilizadores montam pequenos negócios - há quem venda produtos para usar no SL, enquanto outros usam os seus espaços como uma espécie de novos sites tridimensionais.
Fala-se na possibilidade do SL dar origem a uma nova forma de usar a Internet, muito diferente da Web a que estamos habituados.
Marcas e empresas conhecidas - como a IBM, Reebok ou Adidas - estabelecem presença no mundo virtual.
Os media começam a perceber o potencial do SL. A Reuters e a Wired constroem escritórios. “Adam Reuters” passa a fazer uma cobertura exaustiva do mundo virtual. O jornal alemão Bild lança uma edição semanal no SL.
Um copybot (programa que duplica as criações únicas dos utilizadores) ameaça os rendimentos de muitos criadores de conteúdos para o SL. Geram-se vários protestos. Há quem avance a possibilidade de polícia e leis próprias no universo virtual.
2007
A popularidade do SL cresce e o mundo atinge rapidamente os dois milhões de habitantes.
A economia paralela fortalece. A maioria das grandes empresas começa a ter presença no Second Life. Muitas usam-no como forma de promover ou vender os seus produtos do mundo real.
Apesar das precauções da Linden Labs, continuam as tentativas de quebrar a segurança do SL. Um novo script malicioso permite roubar objectos aos avatares. A Linden Labs reforça a monitorização do jogo e cria uma espécie de autoridade supervigilante.
2008
O número de utilizadores continua a crescer. Em média, 100 mil novos utilizadores por mês.
Um grupo de activistas de direitos humanos resolve fazer no SL uma chamada de atenção para a calamitosa situação de Darfur, que se arrasta há anos. O argumento é o de que cada vez mais pessoas se estão a desligar do mundo real e a viver no mundo “colorido e de fantasia” do SL. Mais de 500 utilizadores aderem ao protesto e usam avatares semelhantes a crianças desnutridas. A iniciativa tem forte impacto nos media, mas não agrada a muitos utilizadores. É criada uma réplica permanente de um campo de Darfur, habitada por bots. A zona é evitada pela maioria dos habitantes.
2009
A Nike lança uma campanha publicitária no Second Life com um orçamento milionário. É o maior investimento alguma vez feito numa acção deste género, mas o sucesso é grande. Outras empresas passam a investir avultadas somas em publicidade no SL.
O número de scripts maliciosos aumenta. Através de um objecto distribuído gratuitamente, um “vírus” causa a eliminação das contas de utilizadores. Depois de adquirido o objecto, o “vírus” demora alguns dias a actuar. O suficiente para “infectar” milhares de avatares. É a primeira “doença mortal” no SL e alguns utilizadores resolvem abandonar o universo, alegando que já não é um espaço seguro. O número de novos registos, contudo, compensa largamente a perda.
Praticamente todas as pequenas e grandes empresas têm o seu espaço, que passa a assumir quase tanta importância como o site na World Wide Web.
A maior parte dos conteúdos – música, filmes, informação – é distribuída online. Mais de 80% desta distribuição é feita no Second Life.
O SL tem agora um PIB superior ao de alguns países sub-desenvolvidos e as transacções estão sujeitas a impostos na maioria dos países.
2010
Os gráficos estão agora muito superiores aos da data de lançamento, há sete anos trás. Muitos vivem felizes nesta “segunda vida”, onde trabalham, conhecem pessoas e se divertem. As semelhanças com o mundo real são já significativas, facto que motiva o alerta de alguns académicos para o efeito de alienação que está a ocorrer em todo o mundo informatizado.
Organizações de direitos humanos protestam - no mundo físico, na Web e no SL - contra o que dizem ser o afastamento das sociedades dos países desenvolvidos em relação ao mundo real. São largamente ignoradas pelos utilizadores.
Este é o ano em que a Web passa para segundo plano. A maioria prefere usar o SL para fazer compras, comunicar ou simplesmente aceder a informação. Gigantes online como o Yahoo! e a Amazon não conseguem adaptar-se à mudança e quase desaparecem. O Google - cujas receitas vinham a decrescer - e a Linden Labs fundem-se numa gigantesca operação financeira. Agora com acesso à imensa infra-estrutura de computadores do Google, a Linden Labs não tem qualquer entrave à expansão do universo virtual.
2011
A Linden Labs lança finalmente os aguardados capacetes e luvas para imersão na realidade virtual do SL. A experiência online torna-se cada vez mais vívida.
Um japonês e uma norte-americana, que mantêm no SL o que descrevem como “uma estável relação amorosa”, resolvem contratar uma empresa especializada em inteligência artificial: o objectivo é criar um “filho” virtual - um avatar que cresça, aprenda e tenha personalidade própria. O projecto é bem sucedido e, em três meses, nasce a primeira “criança” do SL. Ouvem-se protestos de sectores mais conservadores da sociedade, mas a Linden Labs alega que nada existe de imoral na criação de programas de computador “inteligentes” e que, desde que dentro da lei, os utilizadores podem criar o que quiserem.
2012
Aumenta o número de pedidos de avatares inteligentes. Muitos utilizadores impossibilitados de ter filhos no mundo real resolvem comprar avatares-bebé. É possível escolher todas as características físicas e a tecnologia permite já algum controlo sobre a “personalidade”. Estes avatares, contudo, são caros e um luxo a que apenas os mais ricos têm acesso.
Muitos pais criam também avatares para os seus filhos, que os passam a usar desde a infância.
Depois de algumas formações dadas por empresas e de experiências com cursos universitários, abre a primeira escola primária no SL, onde professores voluntários dão explicações básicas em horário pós-escolar.
2013
Várias empresas de inteligência artificial passam a criar conteúdos para o SL. Os avatares inteligentes tornam-se melhores e mais baratos. Os usos para estes avatares são vários: filhos virtuais, funcionários de loja (muitos negociantes não querem passar muito tempo a tomar conta dos seus negócios), amantes…
Lafayette R. Hubbard, utilizador veterano e até aí vendedor de roupa para avatares, cria a “virtuology”, a primeira religião no SL. A troco de uma pequena contribuição inicial, Hubbard oferece conselhos espirituais a centenas de utilizadores e ensina-os a tirar o melhor proveito da sua “segunda vida”.
Os políticos usam pela primeira vez o SL como forma de campanha.
2014
A Web está praticamente esquecida. Só os mais velhos navegam ainda pelas páginas antigas, mas a maioria dos sites foi deixada ao abandono.
A religião fundada por Hubbard cresce (e este fica rico). Agora ajudado pelos seus mais antigos seguidores, Hubbard convence milhares de utilizadores a abandonarem as suas vidas no mundo real, que qualifica como “irremediavelmente perdido”. Encoraja-os também a trazerem para o SL amigos e familiares e convence muitos a criarem avatares para os seus filhos assim que estes têm idade suficiente para usar o computador.
Assustados pelos perigos e criminalidade nas grandes cidades, muitos pais optam por enviar os seus filhos a escolas virtuais. Estas funcionam agora em horários normais, como alternativa às escolas tradicionais. O dinheiro da matrícula é usado para pagar aos professores. Em muitos países, os diplomas obtidos nestas escolas são equivalentes aos do mundo real.
Várias empresas lançam no SL serviços de entrega de produtos aos domicílios do mundo físico. Muitos utilizadores deixam de sair de casa.
2014
Hubbard torna-se milionário depois de ter herdado a fortuna de um magnata norte-americano que aderira à “virtuology” e o nomeara como único herdeiro. Hubbard usa os dinheiro para tornar mais forte os serviços prestados aos seus seguidores. Funda uma empresa no mundo real que distribui todo o tipo de artigos ao domicílio, gratuitamente. Os custos são compensados pelas generosas doações que muitos oferecem a Hubbard ou ao seu grupo de “evangelizadores”.
Cada vez mais utilizadores estão dependentes do SL para viver e estão completamente afastados do mundo físico.
2015
Gera-se um forte movimento contra o Second Life. Psicólogos, sociológos, políticos e muitos daqueles que não aderiram ao mundo paralelo encetam uma campanha contra o que chamam “vidas artificiais” dos utilizadores.
Os protestos, contudo, não surtem efeito. Dizendo não se sentirem representados, muitos utilizadores deixam de votar e reclamam o direito a abdicar das respectivas nacionalidades para se tornarem cidadãos do Second Life, onde dizem ter tudo o que precisam.
Um grupo anti-Second Life resolve arrendar uma ilha onde possa levar a cabo os seus protestos. Um deles é a exibição de Matrix, um antigo filme de ficção científica. Atentos, os agora inteligentes e muito discretos programas de vigilância outrora criados pela Linden Labs impedem, de forma imperceptível para a maioria dos utilizadores, o acesso à área.





muito criativo… e mt fixe :)
gostei especialmente do ultimo paragrafo.
Comentário por nuno — Novembro 27, 2006 @ 11:29 pm
Sim, está giro, mas um filme com +-15 anos é antigo? Então a Guerra das Estrelas é o quê? ;-)
De resto, ainda estou à espera que o 2nd Life seja graficamente melhor para o experimentar.
Comentário por Duarte — Novembro 28, 2006 @ 1:26 am
Demais .. parabens pelo exercício. É parecido entre a JoinVenture GoogleZone que vi à alguns tempo.
Realmente é necessário termos algum cuidado.
Abraços
Esqueleto
Comentário por Paulo Aboim Pinto — Novembro 28, 2006 @ 2:43 am
O SL só tem um problema, que é exigir demasiado dos recursos do computador, exigir uma excelente ligação á internet…
Com ligação de 4Mb as vezes torna-se complicado anda por lá.
O facto de depois termos de pagar uma “renda” para termos lá um espaço é chato.
Penso que é a cidade de Amesterdão que está reproduzida na sua totalidade lá dentro ou então apenas um districto.
É giro experimentar mas exige demasiados recursos para o meu gosto por isso, se a coisa pegar, será daqui a uns bons anos.
Comentário por Mario — Novembro 28, 2006 @ 10:56 am
[…] O João Pedro Pereira realizou um interessante exercÃcio intitulado “História Futura do Second Life” onde faz alguma projecções sobre o que se poderá passar no mundo virtual nos próximos dez anos. Obviamente que o João não tem pretensões de ser o Nostradamus do Second Life, mas não me surpreenderia se muito do que descreve se tornasse realidade. Vale a pena ler. […]
Pingback por Para ler « PubADdict — Novembro 28, 2006 @ 12:04 pm
Texto muito interessante.
Agora é só esperar e ver no que dá!
Comentário por José Carlos — Novembro 28, 2006 @ 12:57 pm
[…] En Engrenagem - Media e TecnologÃa, João Pedro Pereira publica la historia futura de Second Life. Hace un recorrido año a año desde el 2006 al 2015. […]
Pingback por Blog de Pablo Mancini — La historia futura de Second Life — Novembro 28, 2006 @ 1:34 pm
Obrigado por todos os comentários e referências!
Comentário por João Pedro Pereira — Novembro 28, 2006 @ 4:04 pm
lol
Comentário por Aleksander — Novembro 29, 2006 @ 8:31 pm
Como diria o brasileiro este artigo é “nota 10″.Sem mais!
Comentário por Francisco Pereira — Novembro 30, 2006 @ 4:21 pm
lol
Há aí coisas que nunca me teriam ocorrido. Como exercício criativo está interessante.
Comentário por Aleksander — Dezembro 1, 2006 @ 9:19 am
Espetáculo! Adorei a história. Continue-a quando puder.
Comentário por Rafael Slonik — Dezembro 6, 2006 @ 12:24 pm
Parabéns, vc colocou em letras o que já imaginamos vai acontecer. Uma ou outra variação, caminhamos nesse rumo.
Quando a elite não possa se distanciar mais dos miseráveis neste plano real, vai ter que migrar pro virtual.
Quem viver, verá!
Comentário por Aki El Vatsug — Dezembro 9, 2006 @ 5:24 am
Não é de hoje que venho questionando os efeitos do second life em nossas vidas, até criei uma
comunidade no orkut para expressar meu odio por este jogo, com o seguinte texto: “O second life (Segunda Vida) esta virtualizando as nossas relações, sociais, economicas, amorosas, todos os tipos de relações. Excluem-se as convivencias sociais , afetivas, para que voc~e se torne um sersingular, um ser que somente no virtual, fará parte de uma nação(Second Nation?) Você que nao tem oportunidades no mundo real, que tal tentar uma nova vida? O second life lhe proporciona isso, uma especie de nova chance, nova chance de nascer, de se criar, de ter o corpo, as qualidades que sempre desejou, eliminar os defeitos mais detestaveis, poder consumir aquilo que você nao tem acesso no mundo real, ter carros, casas, mulheres ( ou homens) que sempre estiveram longe de seru alcance. Que tal uma segunda chance (acho que o jogo deveria se chamar Second Chance) de poder usufruir tudo tudo que nunca teve direito. Mas para isso, esqueçasua vida real, se precisar, mude de casa, vá para uma lan house ou fique num quarto trancado juntamente com um PC e viva ( ou comece a morrer) a sua nova chance.”
Creio que, antes de começarmos a viver a nossa vida virtual, tenhamos que refletir sobre todosos seusaspectos, para não cair na alienação mercadológica que está inserida nele. O texto de João Pedro Pereira confirma as minhas expectativas, e o indico para todos que tentam usufruir deste jogo. Meus Parabéns
Comentário por Tiago Onofre — Dezembro 9, 2006 @ 2:25 pm
Tiago,
Por favor note que o meu texto não é, de forma alguma, uma crítica a quem usa o Second Life. E, enquanto excercício recreativo e narrativa ficcional, não pode confirmar o que quer que seja.
Comentário por João Pedro Pereira — Dezembro 9, 2006 @ 3:19 pm
tudo bem, compreendo que nao é uma critica, mas nao deixa de ser uma reflexão do que poderá acontecer, mesmo que seja uma narrativa ficcional, os acontecimentos futuros podem aproximar, em alguns pontos, das previsões recreativas que você faz :D
Comentário por Tiago Onofre — Dezembro 9, 2006 @ 5:29 pm
Muito bom o exercício.
Cá no Brasil, tenho feito exercício semelhante, ainda que pouco mais otimista, acompanhando meu futuro neto no ano de 2077.
visitas e comentários serão bem-vindos
abraços de além-mar.
Comentário por Leonardo Carvalho — Dezembro 11, 2006 @ 2:32 pm
Fora a parte que a web vai desaparecer e o fato de acontecer tudo em muito pouco tempo, tem muita coisa que pode se tornar real.
Dificil de entender é o cara que tava criticando o mundo virtual criar uma comunidade no Orkut!!!
Mas na real acho q vai acontecer como na web. No comeco as pessoas criavam personagens e mentiam em chats. Hoje em dia todo mundo só usa a web pra facilitar(extender) sua vida real. É óbvio que com 3 dimensoes e depois com luvas e outros acessórios fica mais fácil criar um personagem do que só em chats. Mas nao creio que durará muito tempo a “segunda vida”. Ela se tornará parte da primeira, só em outro ambiente: o virtual.
Comentário por Tiago — Dezembro 15, 2006 @ 4:47 pm
Uma das sua previsões foi até pouco otimista o SL atingiu 2 milhões de residentes antes do final de 2006. Hoje (26/12/2006) está com 2.189.441 residentes cadastrados.
Abraço
Comentário por Franklin Bravos — Dezembro 26, 2006 @ 3:20 pm
Hehe…fato, crítica à virtualização das nossas vidas via blog e comunidade de orkut…
vai entender !?!?
O second life é perigoso para os fracos.Aqueles que sabem utilizá-lo só sofrerão as boas consequências.
Enfim, excelente texto.
Comentário por Adeosm Tone — Dezembro 28, 2006 @ 2:04 pm
Políticos em 2013? Jah tem o partido social democrata brasileiro (PSDB) lá desde meados de dezembro ultimo. É ficção ou profetização?
Comentário por Oscar M. Souza — Janeiro 6, 2007 @ 2:10 am
eu jogo muito bem
Comentário por augusto — Fevereiro 23, 2007 @ 7:19 pm
esse second life é a pior merda q ja vi em toda minha vida.
joguei todos os games, desde a era atari, e nunca imaginei q aos 25 anos em 2007 fosse ver algo tão mal feito e tosco como esse second life. incrivel como alguém consiga jogar essa porcaria.
Comentário por rafael — Junho 16, 2007 @ 7:39 am
Cara tô abismada!!!!!
Nunca imaginei que pudesse existir tanto idiota no mundo. Com tantos problemas de aquecimento global, ditadura econômica que estamos vivendo… As pessoas se preocupam em roupinhas de bonequinhos, voar, se teletransportar e gastar dinheiro para melhorar o bonequinho… Sinceramente é muita utopia!
Tem tantos videos irados sobre Saramago, galeano…Filmes como “a revolução não será televisionada” que eu duvido que algum idiota integrante desse simulador ou joguinho conheça!
Estou abismada com o número de pessoas que participam dessa segunda vida!
O POVO PRECISA SE LIGAR!!!!!
“VOCÊ PENSA ESTAR NO CÉU, MAS NA VERDADE ESTÁ NO INFERNO…” (TIME WILL TELL - BOB MARLEY)
Comentário por Lala — Junho 25, 2007 @ 10:46 pm
“O TEMPO DIRÁ…O TEMPO ETERNO”
ESSE MUNDO…MUIIIIITO PRIMITIVO!
Comentário por Lala — Junho 25, 2007 @ 10:48 pm
[…] João Pedro Pereira realizou um interessante exercÃcio intitulado “História Futura do Second Life” onde faz alguma projecções sobre o que se poderá passar no mundo virtual nos próximos dez anos. […]
Pingback por Para ler at PubADdict — Setembro 27, 2007 @ 6:30 pm
Seria um textinho perfeito se já não existisse o livro 1984. Vcs não lêem porra nenhuma e concordam com essa ficção como se fosse real. ok, boa sorte na primeira vidinha por aqui … ahahah.
Comentário por Teagah Beck — Março 17, 2008 @ 4:18 pm