O autor

Eu... João Pedro Pereira nasceu no Porto, morou em Santa Maria da Feira e estudou jornalismo em Coimbra. É jornalista do Público, em Lisboa. Está na blogosfera desde Dezembro de 2004, onde vai escrevendo sobre Media e Tecnologia.
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Porque falha o jornalismo open source?

13 Abril 2007

Tenho seguido com alguma curiosidade - e, admito, descrença - o projecto de “jornalismo open source” (o termo é muito melhor do que citizen journalism) lançado por Jay Rosen.

Chamado Assignment Zero, começa de forma mais cautelosa do que o falhado Bayosphere, que estava a cargo de Dan Gillmor, um outro guru deste tipo de jornalismo.

A título de experiência (e com o apoio da Wired e da Reuters), o Assignment Zero pretende fazer uma grande cobertura de um fenómeno muito falado na Web: o crowdsourcing. Esta escolha é, por si, indicativa da fraqueza deste tipo de projectos.

Comunidades auto-centradas
Recordemos que um dos motivos que esteve na base do encerramento do Bayosphere foi uma comunidade centrada num conjunto reduzido de interesses. Quem seguisse o site e o tomasse como indicador das preocupações da generalidade da população, pensaria que toda a gente na zona de S. Francisco tinha como prioridade das suas vidas o lançamento do último iPod ou as perspectivas de mercado da Microsoft.

Os temas de tecnologia, aliás, são recorrentes nos sites que operam na base da construcção/selecção colaborativa de informação. A razão é simples: os entusiastas da tecnologia são os early adopters das novas tendências de comunicação na Web e, portanto, aqueles que mais facilmente aderem a este tipo de projectos, moldando-os de acordo com os seus interesses.

Com o tema-piloto do crowdsourcing, acontece o mesmo ao Assignment Zero. O tema é aquele que interessa precisamente ao tipo de pessoas que tem motivação para embarcar no projecto. O Assignment Zero escreve sobre aquilo que ele próprio está a testar.

“Jornalista-cidadão”: um perfil difícil de encontrar
Existe, é claro, gente com todo o tipo de interesses na Internet. Mas nem todos querem ou podem trabalhar numa cobertura jornalística sobre o assunto. E entre os que querem e podem, nem todos o fazem bem.

É também por esta diversidade de interesses que os blogues têm sido tão bem sucedidos. Mas a generalidade da blogosfera não é jornalismo - por muito interessantes que possam ser os seus conteúdos.

Num blogue, o autor pode ter uma voz pessoal, comentar, analisar e opinar. Por norma, tem muita liberdade. É isso que os projectos de “jornalismo open source” não oferecem. E é por isso que falham.

Para serem bem sucedidos, estes sites, que mimetizam o funcionamento dos órgãos profissionais, teriam que encontrar pessoas:

- com uma grande variedade de interesses (o que não é difícil);

- capazes de fazer trabalho jornalístico de qualidade (o que se torna mais complicado);

- dispostas a trabalhar por nenhuma outra recompensa que não a satisfação do trabalho (o que é muito difícil e razão que leva alguns sites a pagarem pelas contribuições).

Ora, num país onde exista imprensa livre e de qualidade, não há muitas razões para as pessoas quererem - com os constrangimentos que isso impõe - assumir o lugar dos profissionais.

Trabalhar de graça?
Jay Rosen tenta responder à questão do trabalho voluntário. A resposta não me parece satisfatória:

There’s also a little mystery at the core of it: Why are these people willing to work for free?

After the crash of TWA Flight 800, the investigators cleared out a hangar and tried to find all the pieces of the plane so they could examine each and figure out what happened. In a way what we’re doing is crash-site journalism. But for a social wave that’s still breaking.

The part we need you for is to help us find the best parts, and develop them into pieces of original reporting. If there’s a piece of it you’re especially interested in — Assignment Zero interviews Jimmy Wales about the social architecture that makes Wikipedia work (a piece we will do — then you can work on it with others at our site, and maybe get the byline, even though everyone else gets (some) credit, too.

Em suma, serão muito poucos os que gostariam de ter o jornalismo como hobby, sobretudo quando podem ter os seus pequenos (ou grandes, por vezes…) púlpitos pessoais na blogosfera, onde têm mais liberdade (já para não dizer que até podem conseguir rendimentos).

A visão poderá parecer a de um jornalista profissional receoso deste “jornalismo open source”; uma visão que, de resto, Rosen evidencia existir entre os profissionais (itálico meu):

What professional journalism says to its audience is that you haven’t the time or inclination to hang around the halls of government or go where news is happening. It’s more rational to let us, the press, do that for you. Go out there and live your life, we’ll keep you informed.

Except it doesn’t always work that way, does it?

De facto, nem sempre funciona assim. Mas funciona assim na maioria das vezes.

Não haja lugar para enganos. Acredito no antigo público; ou seja, num público que já não o é apenas e que passou a ter uma postura emissora. Não me parece é que este público esteja disposto tornar-se produtor de informação da forma estruturada e profissionalizada (nos métodos e no funcionamento, não nas compensações) que projectos como o Assignment Zero impõem.

9 Comentários [comente]

  1. Sobre a questão do “pagamento”, veja-se o caso do software open-source. Se não houvesse um bom exemplo, perceberia o cepticismo,assim não.

    Comentário por SS — Abril 13, 2007 @ 9:35 am

  2. Essa comparação é frequente.

    Mas eu acredito haver uma diferença fundamental a separar o software do jornalismo open source.

    Enquanto no caso do jornalismo qualquer pessoa com conhecimentos básicos pode aderir a um projecto, no software são necessários conhecimentos técnicos que apenas uma minoria possui. Gera-se, portanto, um sentimento de comunidade, de pertença a um grupo restrito, que poderá ser, a meu ver, altamente motivante.

    Os casos de “orgulho geek” são a melhor materialização deste sentimento. Quantos usariam uma t-shirt a dizer “Jornalista cidadão com orgulho”?

    Comentário por João Pedro Pereira — Abril 13, 2007 @ 12:01 pm

  3. Não haja lugar para enganos. Acredito no antigo público; ou seja, num público que já não o é apenas e que passou a ter uma postura emissora. Não me parece é que este público esteja disposto tornar-se produtor de informação da forma estruturada e profissionalizada (nos métodos e no funcionamento, não nas compensações) que projectos como o Assignment Zero impõem.

    Penso que a razão porque o Assignment Zero vai falhar não é porque exige a produção de informação nos termos de uma estrutura profissional. Há que reconhecer: fazer jornalismo “a sério” não é nem de perto nem de longe uma tarefa tão exigente e complexa como a produção de software livre e no entanto há milhares de pessoas em todo o mundo que desenvolvem aplicações com licenças GPL e outras.

    O problema está no facto de que não há nenhum incentivo para os participantes no Assignment Zero em contribuir para uma estrutura mediática centralizada - um portal à maneira antiga, ainda para mais ligado a uma publicação pertencente a um grande grupo editorial. Na verdade, se formos a ver bem, esta iniciativa consiste em mais uma forma de “exploração 2.0″, bem típica dos métodos de crowdsourcing empresariais que querem lucrar à custa do esforço dos utilizadores sem pagar nada. Enquanto se corta na mão-de-obra fixa, tenta-se ao mesmo tempo disfarçar as deficiências do produto final que esses cortes acabam inevitavelmente por gerar aliciando os “papalvos” que estão dispostos a trabalhar por nada.

    The thing is: as pessoas apenas colaboram num projecto colaborativo quando sentem que beneficiam individualmente com isso - por exemplo, mais visitantes para os seus blogs ou outro tipo de recompensa. Se bem que num contexto diferente, o êxito do MySpace junto das novas bandas e dos utilizadores é fruto de uma relação mútua benéfica para todas as partes: os músicos podem promover as suas obras e atrair público para os concertos; o público pode ouvir as novas faixas das suas bandas preferidas, contactar com elas e saber das datas dos concertos, assim como descobrir outros grupos e estabelecer novas relações; finalmente, a News Corp. tem o privilégio de recolher de borla dados sobre a demografia e os hábitos de consumo dos utilizadores que pode ceder às empresas para estas direccionarem melhor a sua publicidade e ambos lucrarem.

    Comentário por Miguel Caetano — Abril 13, 2007 @ 12:19 pm

  4. Antes de existir o “software open-source” era muito difícil alguém imaginar ou aceitar que haveria programadores dispostos a trabalhar de graça :)

    Existem outros exemplos onde a barreira de entrada é mais baixa. A Wikipedia é um exemplo que funciona.

    Comentário por SS — Abril 13, 2007 @ 3:43 pm

  5. Obrigado… Veja no Buzz Machine

    Comentário por Jay Rosen — Abril 14, 2007 @ 4:34 am

  6. Talvez a razão principal para o falhanço do jornalismo-cidadão (partilho da desilusão…) seja o facto de esperar que um novo tipo de cidadão faça o velho tipo de jornalismo. Se calhar o jornalismo não é para aqui chamado e estamos apenas no campo das trocas multilaterais de informação. Um cidadão de hoje tem múltiplos canais de informação. Muitos deles - cada vez mais - não são jornalísticos nem têm que ser.

    Comentário por José Moreno — Abril 15, 2007 @ 12:19 am

  7. “Se calhar o jornalismo não é para aqui chamado” - concordo inteiramente e ando a defender isso há algum tempo.

    Subscrevo o comentário.

    Comentário por João Pedro Pereira — Abril 15, 2007 @ 3:06 pm

  8. Caro Miguel…

    “Há que reconhecer: fazer jornalismo “a sério” não é nem de perto nem de longe uma tarefa tão exigente e complexa como a produção de software livre”

    Suponho que não tenhas estudado jornalismo, nunca tenha realmente entrado em contato com “jornalismo a sério” ou viva em um país em que não há pobreza, corrupção, abismo social… enfim! Jornalismo “a sério” é extremamente difícil de fazer. Talvez mais difícil do que programar linhas de código, porque envolve diversas habilidades e riscos. Não tome alguns tipos de jornalismo (como a imprensa marrom, o jornalismo people) como padrão… o jornalismo “a sério” é bem raro, reconheço, mas ainda existe. Procure-o melhor…

    Comentário por Francisco Madureira — Abril 20, 2007 @ 4:00 pm

  9. […] português João Pedro Pereira anuncia, em seu blog, Engrenagem, três características de um cidadão […]

    Pingback por Libellus » Requesitos para um cidadão repórter — Abril 20, 2007 @ 6:50 pm