Um mestrado em jornalismo destinado a programadores e web developers.
Já aqui tinha defendido que o actual mundo da informação precisa de jornalistas com noções de programação para a Web ou de programadores com alguma aptidão jornalística.
João Pedro Pereira nasceu no Porto, morou em Santa Maria da Feira e estudou jornalismo em Coimbra. É jornalista do Público, em Lisboa. Está na blogosfera desde Dezembro de 2004, onde vai escrevendo sobre Media e Tecnologia.
Editora de ebooks gratuitos. Projecto meu e de uns amigos. »
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Um mestrado em jornalismo destinado a programadores e web developers.
Já aqui tinha defendido que o actual mundo da informação precisa de jornalistas com noções de programação para a Web ou de programadores com alguma aptidão jornalística.
Permite-me que discorde. Andei pela web à procura de definições para “jornalista” ou “repórter”. Li “descobre factos e usa tv, rádio, jornais para os transmitir” (à volta disto - estava à espera de uma frase lapidar, à Oscar Wilde, não encontrei).
Mas vejamos - um exemplo de excelência (e de inveja), Dan Rather, americano, ou um português, o extraordinário Henrique Cymerman (últimas entrevistas/conversas com Cheiq Ahmed Yassin ou Yitzhak Rabin, só como exemplo). Imaginamo-los a escrever nas suas velhas máquinas? Sim. São o que de melhor há entre nós? Absolutamente. Seriam melhores com noções de programação? Diria que não.
Na minha televisão quer-se pôr jornalistas a editar peças (imagem). Poderão fazê-lo, mas muito se perderá. Porque há quem o faça muito melhor - os editores.
Um abraço
Comentário por pol — Maio 30, 2007 @ 1:37 am
Caro pol, permita-me que discorde. A definição que encontrou (na web…) reporta-se à definição do papel de jornalista tal como o pensamos no final do século XX. Se por acaso recuasse no tempo digamos 50 anos, encontraria uma definição diferente — e onde de todo não constaria o uso da tv para transmitir factos. Se recuasse uns 25 anos mais, nem sequer a rádio faria psrte do arsenal de meios ao dispor do jornalista para “transmitir os factos” (partindo do princípio que se trata de factos o que um jornalista transmite e não vamos agora discutir isto, aceito o princípio).
Eu não me imagino a escrever a minha velha Royal — pelo menos, a escrever profissionalmente (poderia usá-la por prazer). Eu NÃO CONSIGO IMAGINAR o João Pedro Pereira a bater uma lauda à máquina!
Eu não partilho da sua visão redutora do papel de um jornalista numa redacção. Duvido mesmo que partilhemos o conceito do que é um jornalista. Pergunto-lhe: um repórter fotográfico é ou não um jornalista? Pergunto-lhe: um cameraman é ou não um jornalista? Pergunto-lhe: um infografista é ou não um jornalista? Pergunto-lhe: um pivot de telejornal é ou não é um jornalista? Pergunto-lhe: um editor (pense: secção de jornal; pense: especial de rádio) é ou não um jornalista?
Conheci jornalistas eméritos que são capazes de fechar um jornal na gráfica e jornalistas não menos eméritos que são incapazes de fazer copy+past. Tenho a certeza que na sua televisão jś conheceu jornalistas (pode é detestá-los) que são capazes de editar uma peça com eficácia.
Eu não tenho a mínima dúvida que, da mesma forma que a fotografia nos trouxe os repórteres da imagem, a rádio abriu caminho a novas formas de reportagem, a televisão idem e o desktop publishing trouxe o tratamento gráfico da informação (infografia), a web traz novas profissões.
Olhe, eu tenho vantagens em saber php e perl e outras coisas. Isso faz de im um melhor jornalista? Do ponto de vista da essência da profissão, é pouco mais que irrelevante. Mas seguramente torna-me mais fácil a tarefa de abarcar as quantidades de informação com que hoje lidamos e dá-me a possibilidade de extrair sínteses em segundos ou minutos, que me permitem melhorar a avaliação do real. E ainda sou capaz de parir uns gráficos decentes.
Não tenho a mínima dúvida que o número de jornalistas com alguns conhecimentos, no geral rudimentares, de linguagens de programação vai aumentar. E não tenho a mínima dúvida que alguns jornalistas serão capazes de programar a apresentação do seu próprio blogue ou site, os seus mashups, as suas colecções de informação, os seus pesquisadores / seleccionadores de agulhas no palheiro colossal que é a Internet.
Em 2007 existem, que eu saiba, dois jornalistas em Portugal capazes de fazer um script em PHP mínimo. Dentro de dois anos esse número ultrapassará a dezena (é provável que existam mais, eu é que não conheço; é só manter a proporção).
O que faz o jornalista não é o meio de produção. Mas o jornalista tem de conhecer o meio de produção.
Comentário por Paulo Querido — Maio 31, 2007 @ 2:59 am
Caro Paulo Querido, retive uma frase sua: “Olhe, eu tenho vantagens em saber php e perl e outras coisas. Isso faz de mim um melhor jornalista? Do ponto de vista da essência da profissão, é pouco mais que irrelevante”. Eu também sou jornalista. Jornalista online. Já fiz trabalhos e dossiers que requeriam animação flash e outros artifícios. Apesar de ter tido um pequeno curso sobre essas ferramentas (não sou do Restelo nem ainda velho), tive a sorte de poder contar com web-designers a trabalhar as peças. Nesse sentido, conhecer as ferramentas ajudou, é um facto, ajudou-me a saber o que pedir e até onde pedir. Mas o resto exigia outro capital e prática diária - que eu não poderei ter. Mas o que eu pretendo, de facto, é não falhar o acontecimento, conseguir refazer o puzzle.
Quanto à definição de jornalista/repórter, apresentei dois exemplos (se quiser acrescentar Sebastião Salgado ou Nuno Patrício não me chateio). E não, não tenho por hábito detestar “companheiros”.
Mas talvez eu esteja completamente enganado, com ideias românticas do tipo que persegue a verdade. Aceito que sim.
Comentário por pol — Junho 1, 2007 @ 3:52 am
Como comentei ao contrário - os jornalistas com noções de programação - pode ficar no ar uma censura que não estou a fazer: que programadores e web developers não poderão tornar-se jornalistas; falso (mas não obrigatóriamente através de mestrados).
Os jornalistas, na minha opinião, podem vir de todo o lado - eu cheguei aqui após anos a tentar ser professor -, até mesmo das escolas de comunicação social.
Comentário por pol — Junho 1, 2007 @ 4:08 am
Pois é, pol… vivemos um tempo diferente, agora, um tempo ao qual nem os jornalistas escapam.
Não podemos confundir uma categoria ou carteira profissional com outra coisa qualquer, como o trabalho que se pratica.
Qualquer jornalista deve obter o máximo de formação possível em todas as ferramentas que o possam auxiliar na sua área de trabalho.
Por oposição, qualquer técnico que possa aperfeiçoar conhecimentos em outras áreas - e porque não o jornalismo? - pode e deve fazê-lo.
No fim, o que é ser jornalista? É que, se pensarmos, quantos dos grandes jornalistas que temos começaram por sê-lo? Se virmos, grande parte deles iniciaram-se em outras áreas de actividade, com outros tipos de formação - e não falo necessariamente de formação “superior” - acabando por se dedicar ao jornalismo e obter uma carteira profissional…
Comentário por Carlos José Teixeira — Junho 1, 2007 @ 11:35 am
Caro pol, eu não tenho grandes ilusões sobre “A Verdade” e deixei o romantismo numa esquina do Bairro Alto, um dia qualquer a sair da Redacção de um dos jornais que lá fiz. Há um quarto de século, para aí.
E não me passaria pela cabeça adicionar Sebastião Salgado à lista.
Fora isso, afinal parece que não estamos assim tão longe: não sendo obrigatório nem sequer condicional, o conhecimento da nova utensilagem digital beneficia o jornalista e não o contrário.
Caro CJT: afinal o que é ser médico? Se formos a ver, há médicos que andaram na Universidade de curso em curso até estabilizarem em Medicina porque, sei lá, tinham boas notas a matemática — acabando por se dedicar a receitar aspirinas e a fazer urgências. Não vamos por aí, ou acabamos mal :)
Comentário por Paulo Querido — Junho 1, 2007 @ 12:41 pm
Paulo Querido: pois é isso mesmo que quero dizer!
O bom exercício de uma profissão não depende necessariamente de uma “vocação” ou de uma formação “superior” e, no que ao jornalismo concerne, ainda mais.
Temos licenciados em sociologia, em direito, temos não licenciados, todos eles perfeitamente credenciados e bons jornalistas. E também temos licenciados em Comunicação e/ou Jornalismo… que poderão ser ou não tão bons como os restantes.
O que quero dizer, afinal, é que devemos conseguir arranjar o máximo de qualificações possíveis para o bom xercício da profissão.
Necessitamos, Paulo, de bons profissionais, chamem-lhes o que quiserem… Daí que não tenha nada contra - antes pelo contrário - o mestrado em jornalismo para programadores e web developers.
Podemos ficar com mais alguns bons jornalistas que nem sequer sabiam que o eram.
Podemos ficar com programadores e web developers que entendam o jornalismo e as suas necessidades de desenvolvimento.
Podemos vir a ter uma espécie de ruptura com o tradicionalismo que ainda assola o panorama jornalístico português.
E podemos não ter nada disto e ficar com mais meia dúzia de “mestres em jornalismo” para dar aulas ou ocupar cadeiras em repartições… ;-)
Comentário por Carlos José Teixeira — Junho 2, 2007 @ 6:41 pm