Como um ou outro leitor mais atento notou, estive no início deste ano perto de ir trabalhar para a sede europeia do Google, em Dublin. Decidi não o fazer.
Nos últimos tempos, têm surgido alguns relatos menos abonatórios do que o habitual acerca do trabalho no Google. Por isto, e porque já passou quase meio ano desde que passei pelo processo de candidatura, achei que era uma boa altura para escrever sobre o assunto.
Houve vários motivos para que eu optasse por não me tornar funcionário do Google. Não vou aqui listar todos, mas apenas os que me parecem relevantes para ajudar a compreender uma das empresas que mais fortemente tem influenciado nos últimos anos a sociedade informatizada.
Comecemos, porém, pelo início.
O início
A ideia de ir para o Google surgiu quando, numa qualquer navegação pela Web, reparei que muitas empresas irlandesas pediam falantes de língua portuguesa.
Algures no meio desta pesquisa, deparei-me com um anúncio de emprego para jovens licenciados que dominassem português. Embora não o dissesse claramente, o anúncio (de uma agência de recrutamento) era sem dúvida para um emprego no Google.
Decidi, por isso, ir à fonte - a página de empregos da empresa. Aí, procurei os anúncios que pedissem candidatos com fluência em português; existiam três ou quatro diferentes e dois deles pareciam corresponder ao meu perfil. Candidatei-me.
O processo de selecção
Uma das candidaturas - à equipa do AdWords - foi recusada logo após a avaliação curricular. Dias depois, porém, recebi um mail para prosseguir com a segunda candidatura. Era um trabalho no que eles chamam “equipa de qualidade de pesquisa”; e, de resto, era melhor remunerado do que o trabalho no AdWords.
Abundam na Internet relatos de processos de selecção apertadíssimos.
O meu processo não foi rápido, nem simples. Mas nem de longe tão complexo quanto parecem ser as selecções de engenheiros.
No e-mail em que anunciaram a aprovação do CV, explicavam que o próximo passo era um exame online. O teste era cronometrado (ao fim do tempo previsto, o browser saltava para a página seguinte) e estava dividido em três partes: duas de perguntas de escolha múltipla e uma terceira com questões que exigiam uma resposta mais desenvolvida.
O teste destinava-se a avaliar conhecimentos técnicos. Algum tempo depois (talvez uma ou duas semanas) recebi um telefonema a dizer que tinha passado. Era altura de começar as entrevistas telefónicas.
Fui entrevistado, num tom muito cordial, por uma funcionária dos recursos humanos e, depois, pelo responsável da secção a que me estava a candidatar.
Dias mais tarde, recebi um e-mail a convidar-me a ir a Dublin, para entrevistas presenciais. Esta foi, de longe, a parte mais interessante de todo o processo. E também uma das mais fortes razões para eu ter recusado o emprego.
Em Dublin
Os recursos humanos do Google trataram de toda a viagem e alojamento, até ao mais pequeno pormenor - incluindo informação muito detalhada sobre como chegar do aeroporto ao hotel e do hotel à sede do Google, que fica próxima do centro da cidade.
Entre a chegada a Dublin, num dia extremamente ventoso, mas muito soalheiro, e a entrada nas instalações da empresa, passaram apenas duas horas. Ao todo, estive 16 horas na cidade…
Quem estiver à espera de algo semelhante ao famoso Googleplex na Califórnia desilude-se ao chegar à sede europeia.
O edifício, embora moderno, é absolutamente banal, excepção feita ao que me pareceu ser uma cadeira de massagens instalada numa sala de espera e às já proverbiais máquinas de comida e bebida grátis. Em tudo o resto, eram as típicas instalações de uma empresa na área das novas tecnologias.
Uma coisa, contudo, fazia-se notar no edifício: há uma espécie de “omnipresença Google”. Por exemplo, na sala onde me instalaram para as três entrevistas consecutivas que se seguiriam, a única decoração era uma linha de quadros com várias das transformações do logo que o Google periodicamente apresenta na página do motor de busca.
Não se trata aqui de nenhuma fabulação minha, criada pelas preocupações com o big brotherianismo do Google. Há, de facto, um “sentimento Google” no local. O que, admito, até pode ter um efeito positivo.
As entrevistas
Se as entrevistas me ajudaram a perceber algo sobre o Google, é que, aparentemente, todos os funcionários são uma roda muito pequena numa engrenagem, da qual não têm uma visão global.
Nenhum dos meus três entrevistadores, por exemplo, sabia quem tinha sido o entrevistador anterior e quem lhe sucederia.
Quando fiz uma pergunta sobre de onde provinham os dados que, como parte das minhas possíveis futuras funções, deveria trabalhar, a resposta foi lacónica: “Temos processos implementados para isso”.
Esta ideia, aliás, foi reforçada pela ignorância em relação a muitos assuntos mostrada pelos dois portugueses do Google que não há muito tempo estiveram em Lisboa.
As entrevistas, todas bastante semelhantes, passaram completamente ao lado de qualquer avaliação dos conhecimentos técnicos que o anúncio pedia - o que, de resto, já tinha acontecido nas entrevistas telefónicas.
Os aspectos mais importantes pareciam ser a motivação para integrar a empresa, a minha experiência a trabalhar em equipa e saber se eu estaria disposto a aguentar as semanas de formação “rotineira”.
A dada altura, fiquei a saber, pela boca de um dos entrevistadores, que eu era “completamente Google” - “This is completely Google”, disse ele, num sotaque americano a apontar para o meu CV. Foi um dos momentos-chave para a futura decisão.
A decisão
Saí de Dublin com a confirmação de que as entrevistas tinham corrido bem. Era apenas necessário entregar alguns papéis e esperar que se desenrolasse um qualquer processo burocrático complexo a cuja explicação não prestei grande atenção.
Decorreu uma semana entre a minha ida à capital irlandesa e a recusa do emprego - uma decisão que, diga-se, causou abanares de cabeça, entre o surpreendido e o desapontado, de algumas pessoas próximas.
Não foi uma decisão fácil. E houve, essencialmente, dois factores a contribuirem para o desfecho desta história.
Em primeiro lugar, no início de Janeiro tinha sido convidado para integrar o Público, para o qual já escrevia. O estado do mercado de trabalho na área do jornalismo é sobejamente conhecido. A oportunidade era boa - tanto mais que o jornal estava em profunda reformulação; e momentos como esse não são comuns.
Em segundo lugar, a ida a Dublin não me tinha deixado a melhor impressão do Google: as funções a desempenhar eram pouco estimulantes, o conhecimento de cada funcionário sobre o que se passava à sua volta parecia não ser grande e todo o espaço tinha um aspecto tão normal que chocava com as expectativas naturalmente elevadas de quem vê na respeitada Time trabalhos como este.
E, para além de tudo isto, não me agradou a padronização pretendida no processo de recrutamento - posto de outra forma, não gostei do “This is completely Google”.
Em jeito de conclusão
Posto isto, tentaria desencorajar qualquer pessoa que quisesse trabalhar no Google?
Não.
As considerações que aqui expus são de carácter essencialmente subjectivo. Não pretendem (nem poderiam) ser uma verdade absoluta (ou sequer uma reportagem) sobre o trabalho no Google.
E grande parte destas considerações baseia-se na impressão negativa com que fiquei da empresa - uma impressão que poderia mudar algum tempo depois e que pode ser absolutamente contrária à de quem lá trabalha.
Aliás, o Google tem muitos aspectos positivos: é uma empresa (como eles se fartam de sublinhar) com impacto directo na vida de muitas pessoas; é um gigante da Web e tem margem para crescer; oferece bons salários e regalias aos funcionários.
Mas parece-me que todo o entusiasmo em torno do trabalho no Google é, essencialmente, uma fabricação da própria empresa, ajudada pela condescendência dos media rendidos ao fascínio que o mundo Google exerce sobre muitos.





João,
Intressante ponto de vista sobre o recrutamento do Google. A última frase deve ter acertado na mouche. Para lá disso, foi uma excelente oportunidade para passear pelos links incluídos.
Cá por mim, tenho um misto de fascínio e horror pela padronização tecnológica e o poder que isso acarreta.
Comentário por MJ Valente — Julho 2, 2007 @ 3:11 am
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Pingback por University Update - Google - História de uma candidatura ao Google — Julho 2, 2007 @ 4:05 am
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Também me vi envolvido num processo de selecção para o Google, também para Dublin, mas no meu caso foram eles que entraram em contacto comigo. Quem diria que a nossa actividade online não serve para nada? ;)
Passadas algumas entrevistas telefónicas acabaram por me dizer que eu nao tinha tudo para ser “material Google”. A colocação era para o departamento de engenharia e eles aí são MUITO exigentes.
Não tinha encontrado relatos das instalações do Google em Dublin mas fiquei agora apreensivo com a tua descrição :|
Obrigado pelo relato e boa sorte neste novo projecto :)
Comentário por João Barros — Julho 2, 2007 @ 2:48 pm
Estive numa situação idêntica para a equipa do AdWords em Dublin. Mas, sinceramente, nem em termos remuneratórios valia a pena a mudança.
Quanto ao acesso à informação, tenho um colega do Porto (engenheiro) que foi convidado para trabalhar no único centro de desenvolvimento do Google na Europa, na Suiça. Aceitou mas nunca lhe foram comunicadas as tarefas a desempenhar.
Posso dizer que esta pessoa é jovem, ía começar o doutoramento e é especialista em interfaces de sistemas operativos… capiche?
Comentário por Carlos — Julho 3, 2007 @ 7:07 pm
Também candidatei-me ao Google mas antes de apanhar o avião recusei.
Estava a pensar passar umas férias na Irlanda quando descobri uma oportunidade de trabalhar como “Search Quality Associate - Portuguese” em Dublin, no “Google EU Headquarters”.
O processo de canditatura foi simples, preenchi um questionário online e em anexo enviei o meu CV em inglês.
Passados alguns dias uma Especialista de Recutamento do Google ligou-me a dizer que estavam interessados em entrevistar-me pelo telefone umas semanas mais tarde e que na entrevista iam-me perguntar sobre o meu curriculum e sobre o Google, nomeadamente o motor de busca, webmaster guidelines e outros produtos associados.
Ok, não me preparei muito, pois não estava com muitas expectativas e também não tive muito tempo, mas aguardei o telefonema e no dia e hora em questão tive a entrevista.
Foram cerca de 20 ou 30 minutos a falar sobre o meu curriculum, sobre o Google e a minha motivação para esta posição. No final da entrevista, disse-me que ia marcar na semana seguinte mais uma etrevista por telefone desta vez com o chefe de equipa na área em que ía trabalhar e sugeriu que compreendesse muito bem o Adwords e Adsense, além de outras tecnologias que pudessem contribuir para melhorar estes serviços.
Na semana seguinte tive então a segunda entrevista de cerca de 40 minutos onde falei mais em promenor sobre os conhecimentos que tinha sobre essas tecnologias e saber se estava preparado para fazer algum trabalho rotineiro nos primeiros meses. Disse que sim, mas que não queria fazer isso durante todo o ano e ele concordou. No final, disse-me que a especilalista de recrutamento ía me ligar dando conta do feedback desta entrevista.
Dois dias mais tarde, a especialista de recrutamento ligou-me dizendo que fui aceitei e que estava convidado para fazer uma entrevista nos escritórios de Dublin, sendo que as despesas de deslocação e alojamento eram todas pagas pelo Google.
Fiquei muito entusiasmado, afinal de contas tinha já passado duas entrevistas com sucesso no Google.
Apesar de tudo isto, antes de viajar quis esclarecer alguns pormenores e por isso enviei um email com algumas questões relevantes para mim, entre elas a mais óbvia claro quanto é que vou ganhar por mês?
Bem, ela não me conseguiu responder a esta questão, mas falou-me que no máximo poderia chegar aos 38.000€ por ano brutos, já com as várias regalias e bonus existentes, mas que iria começar com 30.800!!!
Ora, se dividirmos 30800€porano/12meses = 2566,666€ por mes, mas não esquecer os descontos, cerca de 20% de imposto + 8% de “segurança social” ficamos já só com 1848€ líquidos, o que até parace um bom dinheiro aqui em Portugal.
Mas que tipo de vida pode-se ter com 1848€ em Dublin?
Tudo depende de onde queremos dormir, como queremos ir para o trabalho e o que queremos comer, isto só para falar da base de sobrivivência.
Contas feitas, o custo de vida em Dublin é no mínimo duas vezes o de Lisboa, pelo que temos o seguinte, tendo em conta que queria ir a pé para o trabalho:
alojamento: 1400€ (um bom T1 perto do trabalho)
transporte: 0€ (a pé ou de bicicleta)
alimentação: 400€ (tendo em conta que no Google os snacks são de graça).
Conclusão: 1848 - 1800 = 48€
Apenas 48€ para extras por mês!!!
Com estes resultados decidi ligar para lá e dizer que não estava interessado em ir à entrevista, pois apesar de todas as condições que proporcionam, desde o pagamento da recolocação e viagens, não estava disposto a baixar a minha qualidade de vida.
Se ainda tivesse a certeza que ganhasse os 38000€ de início, o mínimo que acho razoável, pode ser que considerasse a oferta pois isso significaria cerca de mais 480€ por mês (poupando bem), mas que em Portugal seriam apenas mais 240€ por mês dado o custo de vida. Não seria muito, mas estaria disposto a fazer alguns sacrifícios para empreender numa nova aventura, mas não para ficar a passar necessidades.
Agora compreendo porque os Gloogers vivem o tempo todo no Google, não há dinheiro para mais nada e se houver é para pagar umas férias merecidas numa cidade europeia. Não muito mais.
Não quero dizer com este comentário que não seja um bom trabalho, com imensas regalias e que é bom para o Curriculum. Mas isso depende dos valores de cada um.
Além da questão do dinheiro coloquei mais algumas questões pessoais que também não iam de encontro ao que esperava e por isso tudo decidi recusar antes sequer de ter a entrevista.
Seria um desperdício de tempo e dinheiro para ambas as partes como reconheceu a especialista de recrutamento.
Boa sorte a todos os que estejam interessados a ir trabalhar para o Google em Dublin, mas cuidado com o nevoeiro perto das docas.
Comentário por workflow — Janeiro 11, 2008 @ 3:57 pm
Pois eu também entrei nesse proesso de recrutamento, mas fiquei pela 1ª entrevista telefonica.
Comentário por renato — Janeiro 15, 2008 @ 11:27 am