Foi alvo de alguma cobertura na blogosfera e nos meios tradicionais o anúncio de que o Google vai passar a incluir comentários nas notícias que agrega no seu Google News.
Esta nova funcionalidade é, por um lado, estranha e, por outro, uma má notícia para o jornalismo em geral.
Antes de mais considerações, olhemos para como funcionam os comentários:
- Só podem ser feitos por pessoas ou organizações “que sejam participantes na estória”.
- Serão assinalados como tal e publicados na íntegra.
- O envio é feito por e-mail e a identidade do remetente terá de ser comprovada.
Ora, os contornos desta ferramenta são, no mínimo, curiosos.
Para começar, o Google não optou por algo ao estilo Digg, em que os comentários são imediatos e auto-regulados pela própria comunidade.
A questão da identificação é complexa, obriga a intervenção humana significativa e torna o processo potencialmente lento e dispendioso. Como é possível garantir que o remetente de um e-mail é a pessoa que diz ser? E é possível fazê-lo em tempo útil, antes que a notícia que suscitou o comentário seja soterrada pelas seguintes?
Mais relevante: qual o objectivo do Google com esta jogada?
Ao permitir comentários, o Google enriquece as páginas do Google News (com conteúdo gerado por utilizadores, é certo, mas com conteúdo cujo filtro sairá relativamente caro). Isto pode fazer com que estas páginas consigam mais tráfego. Mas há maneiras bem menos rebuscadas para o Google aumentar os utilizadores de um dos seus serviços.
Uma hipótese que poderá estar nos planos da empresa é integrar os comentários no seu motor de busca. Seria, sem dúvida, um acréscimo interessante e com potencial para dar frutos.
Porém, se a estratégia do Google neste aspecto não me parece clara, uma coisa afigura-se-me como certa: não traz nada de bom à actividade jornalística.
Ao dar grande exposição ao que qualquer parte envolvida quiser dizer sobre o assunto, o Google arrisca-se a anular (pelo menos no que ao que alguns leitores diz respeito) boa dose do trabalho jornalístico de selecção.
É precisamente tarefa dos jornalistas decidir o que é relevante de entre o que partes (frequentemente interessadas) dizem e alegam ser verdade sobre uma dada matéria.
Para além disso, o discurso das fontes não se esgota no texto: o tom, o contexto e todos os elementos que existem no contacto feito pelo jornalista são importantes para as conclusões que este tira e para a elaboração do texto final apresentado ao público. E, na sua maioria, estes elementos não são perceptíveis num e-mail enviado aos funcionários do Google e que é publicado sem edição.
Há, por cima de tudo isto, os riscos óbvios: a intervenção de assessores de imprensa e gabinetes de imagem, a falsificação de identidades, o comentário enviesado, o ruído e ofuscação de informação, os pseudo direitos de resposta…
Por agora, o sistema está em fase de testes na versão americana do serviço. Esperemos para ver no que dá…




