Actualização: Para os interessados em seguir, este post tem dado um pouco que falar. Uma pequena discussão relacionada com o tema no Mas Certamente Que Sim! e já esgrimi argumentos no blogue do Carlos Andrade.
Que o número de blogues aumenta - e muito - diariamente é facto que já não deve surpreender ninguém. Os números do relatório trimestral do Technorati - que indicam 100 mil novos blogs por dia - só impressionam quem não mergulhar um pouco mais a fundo nos dados e não tiver em consideração aquilo que os blogues são actualmente.
Passo a explicar:
Em primeiro lugar, convém não esquecer que criar um blogue é facílimo para qualquer pessoa com uma ciberliteracia básica. Mais fácil do que criá-lo, só mesmo deixá-lo ao abandono.
O Technorati aponta 55 por cento de blogues activos. Na minha opinião, a definição de activo - pelo menos um post nos últimos três meses - deixa muito a desejar.
Por outro lado, Nicholas Carr fez uma análise do relatório do Technorati e descobriu que os blogues ocupam uma posição cada vez mais diminuta entre os media influentes:
Blogs’ share of the top media sites – the sites that set the public agenda - has been shrinking rapidly. Even as the blogosphere has exploded in size, its prominence in online media has been waning.
Como um leitor salienta em comentário, alterações no algoritmo do Technorati não permitirão a comparação directa entre relatórios que fez com que Carr chegasse a esta conclusão. A questão, contudo, é de somenos importância e o ponto defendido por Carr mantém-se válido:
The real A List of online media is made up almost entirely of the sites maintained by mainstream media companies.
Isto prende-se com a própria definição de blogue e com o uso que os blogues têm tido.
Ainda que continue a haver blogues influentes e a disputar lugares com os tradicionais media online, estes blogues tendem a ser detidos por empresas de media e a ser explorados profissionalmente.
Creio existir uma tendência para se ler os números da blogosfera como um sinal de aumento da voz do cidadão comum, indicador de uma evolução tendente a transformar a Internet num citizen media.
Ora, a questão é que os blogues são apenas uma estrutura de publicação. Na esmagadora maioria dos casos, reconhecemos um blogue quando o vemos. Tem uma estrutura de ordenação da informação inconfundível com a de outros tipos de sites. Tudo o resto que por vezes se encontra na definição de blogues (existência de links, plataforma de publicação pessoal) é limitador e deixaria de fora sites que, sem sombra de dúvidas, qualquer pessoa classificaria como sendo um blogue assim que olhasse para eles.
Sob este prisma, o facto de haver blogues influentes pode não estar minimamente relacionado com um movimento de bases na Internet. E o facto é que os blogues influentes raramente pertencem a cidadãos sem reputação pré-blogosfera (embora existam excepções de indivíduos que se notabilizaram na blogosfera); mais do que isso, estes blogues tendem a ser detidos por empresas de media e mantidos por profissionais, muitas vezes jornalistas.
Neste último caso, é irrelevante para o percurso da Internet rumo a um estado de citizen media o facto de os sites influentes serem blogues ou outro tipo de site qualquer: continuam a estar nas mãos dos tradicionais produtores de informação.
A palavra blogosfera é enganadora: agrupa, como se de um único conjunto se tratasse, realidades absolutamente distintas. Mete no mesmo saco o blogue de um conceituado jornalista integrado no site do órgão para o qual trabalha (portanto, uma forma nova de coluna online), o blogue pessoal de um adolescente cujas visitas são apenas dos amigos, e o blogue de um opinion maker que frequentemente dispõe de tempo de antena também nos media tradicionais.
É claro que dizer que a blogosfera é cada vez maior (e por “maior”, entender “mais importante”) é reconfortante para todos os que não têm - mas gostariam de ter - acesso a outros meios de comunicação. É essencialmente por isso que trimestralmente os números do Technorati são recebidos como se de um grande feito se tratasse. Os números da blogosfera satisfazem, sobretudo, o ego de alguns bloggers que sentem, por suposto aumento da importância colectiva, aumentar a sua própria importância individual.





Uma análise interessante, a que voltarei, mas mesmo assim tão etérea como tantas outras. Ou seja, só a titulo de exemplo, diz-se que a posição dos blogues é cada vez mais diminuta, mas depois descobre-se que os instrumentos de medição são fracos ou inexistentes, para além de antes (não aqui) se ter dito que sempre foi pequena. Bom, palpites infundados na maior parte das vezes. E blogosfera não é uma palavra engandora; é apenas uma palavra :)
Comentário por Luís N. — Novembro 12, 2006 @ 4:26 pm
Como disse no post, o essencial não é que a importância dos blogues seja (eventualmente) cada vez mais diminuta, mas que os blogues de topo estejam na mão dos tradicionais produtores de conteúdos e opinion makers - e para chegar a esta conclusão basta um olhar atento, não são precisos estudos comparativos (embora haja alguns dados estatísticos, nomeadamente do Technorati, a sustentar isto).
A palavra blogosfera é enganadora na exacta medida em que é frequentemente usada para designar um movimento de cidadania na Internet, uma nova ágora electrónica de acesso global e demais conceitos do género.
O problema é que “blogosfera” significa pouco: apenas o conjunto de sites com uma estrutura específica.
Para manter a palavra “blogosfera” presa ao conceito de citizen media, teríamos que retirar alguns blogues da porção de realidade que o termo abarca - precisamente os blogues que são detidos pelas empresas de media e profissionais de conteúdos. Ou seja, passaria a haver blogues fora da blogosfera.
Comentário por João Pedro Pereira — Novembro 12, 2006 @ 5:31 pm
João Pedro, julgo perceber o que afirmas, o que não percebo é que conclusões daí se podemtirar. Desde logo, porque insistir em comparar os blogues com os media tradicionais “ainda que on line” parece conduzir sempre a raciocinios desviados. Depois, calro que o Blogue é apenas uma estrutura de publicação, como se diz, mas, como também se diz dessa estrutura se fazem usos, e parece também indiscutivel que o cidadão comum dele faz uso, e esse uso que faz nem de longe nem de perto se esgota num confronto com os media tradicionais. E que tal considerar a blogosfera o conjunto dos blogues tal como o rebanho é o conjunto dos seus mebros? :)
Comentário por Luís N. — Novembro 13, 2006 @ 11:13 am
Bom dia
Tal como na discussão entre jornalismo e blogues, tb na análise do papel dos blogues no panorama mediatico, se tende a fazer uma análise exagerada. No meu entender, a maioria dos bloggers não pretende fazer jornalismo, tal como não pretende roubar o papel do New York Times ou da CNN, na definição directa da Agenda Pública. Alguns bloggers poderão, quando muito, querer pressionar a agenda dos próprios media, o que me parece legitimo.
Já agora era bom que as pessoas, sobretudo os jornalistas, percebessem que existe muito mais na blogosfera, principalmente na blogosfera portuguesa, do que os jornalistas , os politicos, ou os pseuso-intelectuais da “Short head”. A riqueza e relevância da blogosfera está na diversidade da “long tail”, caso contrário estaríamos perante um media tradicional num novo suporte.
Comentário por Hugo — Novembro 13, 2006 @ 11:37 am
A análise feita por Carr, e as conclusões que daí se retiram, não são correctas pelo simples facto que o índice Technorati apenas dá uma noção de popularidade e não de influência. Apesar da primeira contribuir para a segunda, é apenas uma parte da mesma e não dever ser tida como um todo. Pela quantidade de notícias parece-me claro que os MSM sejam mais populares (i.e. mais inbound links de acordo com o Technorati) do que os blogs.
Não significa que os blogs sejam mais ou menos influentes, já que isso será dependente do tópico em questão e da Expertise e Fiabilidade atribuída ao autor do blog nesse dado assunto; questões mais amplas e de análise e medição claramente mais complicada.
Quanto à questão entre blogs “profissionais” e “pessoais” é demasiado subjectiva para obter um consenso. Estará muito dependente do uso que cada um dá ao seu blog, passando por políticas editoriais, que obrigariam quase a uma análise caso-a-caso.
Comentário por Bruno Ribeiro — Novembro 13, 2006 @ 12:21 pm
A análise de Carr diz muito claramente isto: depois de um período de, digamos, readaptação da Internet 1.0 para a web 2.0, os MSM estão a recuperar o seu terreno tradicional, episodicamente cedido aos rápidos blogs. A recuperação é visível precisamente na comparação entre os lugares ocupados há dois anos e agora. O que isto significa, é o que veremos em 2007. Eu tenho umas ideias, mas não passam disso.
Comentário por Paulo — Novembro 13, 2006 @ 12:35 pm
na procura de divulgação do meu blogue viajo pela blogosfera e só encontro blogues desactualizados…quanto ao technorati não domino.
Comentário por João Ferreira Dias — Novembro 13, 2006 @ 1:11 pm
O problema com o que Carr afirma, não parte do que é dito, mas sim dos dados Technorati.
Quando se mede os Inbound Links não estamos a medir Influência, mas sim Popularidade. Um site de MSM tem muitas mais páginas e artigos do que um blog e é mais facilmente reconhecido, logo é natural que haja mais gente a linkar esse site do que a linkar um dado blog.
Não acredito que alguma vez um blog se torne tão popular como NY Times, ou à escala nacional o JN ou Público tomando em conta o tipo de análise feito pela Technorati.
Por outro lado, recomendo esta análise ao nível da Influência sobre o tema “blog marketing” feito pela empresa Onalytica, onde alguns blogs surgem bem posicionados. Isto porque é tido em conta um tema específico e não o geral.
Comentário por Bruno Ribeiro — Novembro 13, 2006 @ 3:44 pm
A imprensa tradicional é formatada, calibrada,
definitivamente previsível quanto as suas orientações politicas, quanto aos “blogues” que não são o espaço de selvajaria que diz serem
são um espaço em gestação, onde esta em jogo “a palavra”
não desse “monstro” mas dessa “multitude” açaimada que tanto medo lhe faz.
Comentário por portovigario — Novembro 13, 2006 @ 4:23 pm
Caro Bruno Ribeiro, tem toda a razão, o que o Technorati mede é a popularidade e não a influência. Há anos que venho defendendo isso.
O aspecto essencial da análise de Carr é a curva. E a curva diz-nos isto: At the very top of the long-tail curve, there’s been a similar erosion. Back in October 2004, there were three blogs in the Technorati top 10. Last year, there was one. Today, there are zero.
Comentário por Paulo — Novembro 13, 2006 @ 4:26 pm
Conteúdo válido e opiniões sólidas podem ser encontrados em muitos blogues, muito mais do que em sites de media tradicionais (embora sejam uma pequena percentagem).
Popularidade e influência não alteram esse facto.
Encontro muita informação e conteúdo próprio em blogues, e muito menos em media tradicionais.
Estes continuarão a dominar e a assegurar os seus rendimentos publicitários, mesmo se a qualidade de notícias produzida for menor e o “entertainment” for cada vez maior.
Comentário por Mário — Novembro 13, 2006 @ 5:15 pm
Essencialmente o que move a maior parte dos jornais, e infelizmente de jornalistas,
é uma feroz vontade de domínio, e disso se aperceberam os “internautas”. O espaço dos
“blogues” é entretanto um espaço aberto, o que desde há muito deixou de ser o caso da “imprensa tradicional” (mas não vale a pena insistir sobre a questão seria como “abrir fogo sobre a ambulância”…).
Julgar da qualidade dos “blogues” é absurdo, se lhes aplicarmos esses tais “critérios de validade”
que fizeram dos medias o que são hoje…E de que direito os sensores o fariam?
Comentário por portovigario — Novembro 13, 2006 @ 6:21 pm
1) É sempre interessante ver como nos atribuem palavras que nunca foram ditas. Talvez seja consequência dos hábitos de leitura superficial para que a profusão de escrita na blogosfera tem contribuído.
No seu primeiro comentário aqui (e em post no seu próprio blogue), Portovigario afirma que eu classifico os blogues como um “espaço de selvajaria”. Eu só pergunto: Onde? Em que frase, ou período, exactamente? Enfim, afirmação absurda…
2) Em nenhum lado do meu texto se duvida da qualidade que os blogues - pessoais ou não - possam ter.
O que digo é que se juntarmos os blogues profissionais (e por serem profissionais não têm forçosamente que ser jornalísticos!) e os blogues não profissionais de quem já tem acesso aos media, temos reunida a esmagadora maioria dos blogues influentes - o que não tira valor aos conteúdos (ensaios, opiniões, fotos, etc) dos restantes blogues.
3) Popularidade e influência estão directamente relacionados. Quem chega a uma maior audiência, tem mais possibilidade de influenciar a opinião pública. Não será a única variável, mas o tamanho da audiência a que se chega é sem dúvida fundamental.
4) Bruno Ribeiro,
Considero que é muito fácil e objectiva a identificação de blogues profissionais: alguém é pago para manter um blog em full-time? É um emprego. Trata-se de um blogger profissional. Simples.
5) A minha ideia, em forma de silogismo:
A blogsfera incorpora imensos blogues que não estão nas mãos de cidadãos desligados dos media mainstream.
Os blogues ligados aos media ou a pessoas que a eles têm acesso são os mais influentes.
Logo, o aumento da influência/importância da blogosfera não está tão ligado a um movimento de citizen media, como a um aproveitamento da estrutura de publicação pelos media mainstream ou por pessoas a eles ligadas.
Em resumo: a blogosfera pessoal mais ou menos anónima (a “citizen blogosphere”, se quiserem, e onde este blogue se inclui) é muito menos importante do que alguns gostam de proclamar.
Comentário por João Pedro Pereira — Novembro 13, 2006 @ 10:29 pm
Clap clap clap para João Pedro. Por tudo - mas destaco a firmeza e a elegância.
Comentário por Paulo — Novembro 14, 2006 @ 12:22 am
“Considero que é muito fácil e objectiva a identificação de blogues profissionais: alguém é pago para manter um blog em full-time? É um emprego. Trata-se de um blogger profissional. Simples”
Isso não elimina a ambiguidade. Entre um blogger que vive dos rendimentos da publicidade que coloca no seu blog pessoal, e o de um jornalista que tem um blog dentro da estrutura do site da empresa para a qual trabalha, mas que dispõe de total liberdade editorial não sendo “obrigado” a escrever, qual será “mais profissional”?
É que o primeiro bloga para viver, mas está desligado dos MSM; o segundo bloga por prazer, mas está ligado aos MSM.
2) Paulo, a mudança no algoritmo Technorati explica em parte a erosão; mas aquilo que a análise não tem em conta é que está a comparar um período (2006) relativamente calmo, comparado com o final de 2004 onde se deu o verdadeiro boom de notoriedade dos blogs com as eleições norte-americanas.
Comentário por Bruno Ribeiro — Novembro 14, 2006 @ 11:18 am
Entre dois “JPpereira” o Portovigário enganou-se e pede desculpa a João Pedro Pereira pelo que erradamente lhe atribuía.
Mais uma vez pedimos desculpa.
PV
Comentário por portovigario — Novembro 14, 2006 @ 3:33 pm
Bruno,
Mais uma vez, discordo:
Um blogger faz dessa actividade uma ocupação full time e remunerada (seja paga por uma empresa ou sustentada por publicidade)? Profissão: blogger.
Um jornalista tem um blogue no site do orgão onde trabalha? Profissão: jornalista (que - entre outras funções - tem a de manter aquele blogue).
Note-se, no entanto, que para a ideia que tenho defendido [ver 5) do meu comentário anterior] o mais importante é a ligação do blogue/blogger aos media mainstream e não a profissionalização.
O frequente exemplo de Pacheco Pereira é um caso em que o blogger tem ligação (neste caso, acesso regular a espaço de opinião) aos media, sem que seja um blogger profissional.
Comentário por João Pedro Pereira — Novembro 14, 2006 @ 3:37 pm
[…] Surgiu o debate sobre a posição dos blogs nos meios de comunicação e as relações entre jornalistas e bloggers. Esta conversa começou no blog Engrenagem de João Pedro Pereira e entrou em chamas com a reacção no Ramblings about life and tech. Concordo com o que disse JPP e percebo a posição do Ricardo. […]
Pingback por Relações Públicas : : bloggers, jornalistas e o panorama de comunicação — Novembro 15, 2006 @ 2:55 am
Hum… Tenho dúvidas sobre a não profissionalização de Pacheco Pereira no blog. Sem desprimor algum para as capacidades do historiador e ex-político, que conheci ao longo de décadas e conheço hoje bastante melhor que a maioria dos meus concidadãos, o blog é-lhe hoje fundamental para manter alguma pressão que depois o mantém na onda. Em termos simples: ajuda a manter a personagem José Pacheco Pereira num eixo comunicacional e mediático. Isto é profissionalismo, mesmo que não seja remunerado.
Isto não belisca o ponto do JPP (este).
Caro Bruno, compreendo (e estou a reflectir) o seu ponto de vista. O boom de notoriedade de 2004 não se deveu (só) às eleições, tenho até ideia de que foi ao contrário, por força do impacto que os blogs já tinham, era irrecusável integrá-los no show off mediático-eleitoral. Mas isto não prejudica o seu ponto, que marca… pontos.
Quanto à notoriedade versus influência, recomendo post meu a sair logo (este dia 15) pela manhã no meu blog pessoal. É um caso exemplar e próximo e actual.
Comentário por Paulo — Novembro 15, 2006 @ 2:57 am
Dois tipos de jornalismo, o primeiro o de José Pacheco Pereira delirante e confuso
misturando alhos e bugalhos falando de tudo e de nada, o segundo de Olivier Zilbertin do
“Le monde” simplesmente profissional e antes de tudo informativo.
Veja a diferença.
Comentário por portovigario — Novembro 15, 2006 @ 8:40 am
[…] Coube a João Pedro Pereira, seguido de Paulo Querido, iniciarem as lides prontamente contrapostos por Carlos Andrade. Para quem não sabe do que se fala, recomendo a leitura do “State of the Blogosphere” de David Sifry (de que já falei aqui) e do posto “More Blogs, Less Weight” Nicholas Carr expõe o seu ponto de vista. No post do João Pedro Pereira deixa algumas impressões, que não estarei aqui a recordar mas que irei desenvolver. […]
Pingback por Os Blogs e a Long Tail « PubADdict — Novembro 18, 2006 @ 12:49 pm
Excelente este artigo, pela pertinência e lucidez.
Comentário por vague — Novembro 20, 2006 @ 10:01 pm
[…] a João Pedro Pereira, seguido de Paulo Querido, iniciarem as lides prontamente contrapostos por Carlos Andrade. Para […]
Pingback por Os Blogs e a Long Tail at PubADdict — Setembro 27, 2007 @ 7:39 pm